O azul que voltará a voar: a promessa do retorno das ararinhas-azuis ao céu brasileiro
- Maylon Maurílio

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A ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), espécie endêmica da Caatinga baiana e única representante de seu gênero, consolidou-se como símbolo de esforços para conservação da biodiversidade brasileira após ser declarada extinta na natureza em 2002 (ICMbio, 2026)). Sua área de ocorrência permaneceu incerta até 1986, quando os últimos exemplares foram localizados no município de Curaçá, Bahia. Com o desaparecimento do último indivíduo em vida livre no ano 2000, iniciou-se uma ampla mobilização nacional e internacional voltada à sua preservação. O manejo ex situ, coordenado por instituições como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), mostrou-se determinante para o sucesso reprodutivo em cativeiro.

Imagem 1: Ararinhas-azuis em um recinto construído especialmente para a espécie no Zoológico de São Paulo. (Fonte: Mongabay, 2024)
A captura ilegal e a degradação do habitat, sobretudo nas matas ciliares do semiárido baiano, foram as principais causas do colapso populacional ao longo do século XX. Em 1990, restava apenas um indivíduo em liberdade, fato que motivou a criação do Comitê Permanente para a Recuperação da Ararinha-azul (CPRAA) pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) (Barros et al., 2012). A partir desse marco, estruturou-se um programa integrado de conservação, envolvendo instituições nacionais e internacionais.
O manejo ex situ tornou-se a estratégia central de recuperação da espécie, com destaque para os programas de reprodução conduzidos por mantenedores como a Birds International Incorporated (Filipinas), a Al Wabra Wildlife Preservation (Catar) e a Association for the Conservation of Threatened Parrots – ACTP (Alemanha). A introdução de técnicas de inseminação artificial, a partir de 2013, ampliou a variabilidade genética e aumentou o sucesso reprodutivo dos plantéis (Purchase, 2019). Em 2017, a população em cativeiro atingiu 152 indivíduos, permitindo o início do planejamento para a reintrodução da espécie (Lugarini et al., 2021).
Paralelamente, ações voltadas à conservação de habitat foram implementadas. Em 2018, foram criadas o Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul e a Área de Proteção Ambiental da Ararinha-Azul, consolidando áreas protegidas na região de Curaçá (BA), local histórico de ocorrência da espécie (Brasil, 2018). Fazendas como Gangorra, Concórdia e Ararinha Azul foram adquiridas e restauradas, constituindo o núcleo do Centro de Reprodução e Reintrodução da Ararinha-Azul, responsável pelo manejo, aclimatação e treinamento dos indivíduos destinados à soltura (Lugarini et al., 2021)

Imagem 2: Duas primeiras ararinhas nascidas na natureza a voar sobre a Caatinga, (Fonte: Mongabay, 2024)
O segundo ciclo do Plano de Ação Nacional (PAN) para a Ararinha-Azul, vigente entre 2019 e 2024, estabeleceu como metas a reintrodução da espécie em sua área original de ocorrência, o fortalecimento da população em vida livre e o engajamento das comunidades locais em práticas sustentáveis (ICMBio, 2019). Em 2020, 52 ararinhas-azuis foram repatriadas da Alemanha para o Brasil, e cerca de 20 indivíduos passaram a integrar o programa de adaptação pré-soltura (Lugarini et al., 2021).
Em 2025, um surto de circovírus foi identificado entre ararinhas mantidas no Centro de Reprodução e Reintrodução da Ararinha-Azul, em Curaçá (BA), levantando sérias preocupações sobre a biossegurança do projeto. O vírus, que compromete o sistema imunológico das aves, levou à suspensão temporária das solturas e à adoção de protocolos sanitários rigorosos, como quarentena, exames laboratoriais e isolamento dos indivíduos infectados (ICMBio, 2025).
Originário da Austrália, o circovírus dos psitacídeos é o principal causador da Doença do Bico e das Penas, que afeta araras, papagaios e periquitos. Trata-se de uma enfermidade sem cura, frequentemente fatal, caracterizada por alterações na coloração das penas, falhas no empenamento e deformidades no bico. Embora não represente risco para humanos ou aves de produção, sua presença em populações silvestres de psitacídeos é devastadora (ICMBio, 2025).
A suspensão das solturas se justifica porque aves infectadas ou portadoras assintomáticas poderiam disseminar o vírus no ambiente natural, colocando em risco não apenas os indivíduos reintroduzidos, mas também outras espécies nativas. Como o circovírus enfraquece o sistema imunológico, as aves tornam-se mais vulneráveis a infecções secundárias, além de apresentarem menor capacidade de adaptação após a soltura, terem restrição de qualidade e duração do vôo, termorregulação e comprometimento direto do objetivo e do sucesso do programa de conservação (ICMBio, 2025).
Apesar das críticas quanto à transparência e à gestão do projeto, o ICMBio reafirmou que o plano de reintrodução permanece em execução, com reforço nas medidas de biossegurança e apoio técnico internacional. Segundo reportagem da Mongabay Brasil, o episódio evidenciou divergências entre instituições parceiras e ressaltou os desafios inerentes à condução de projetos de conservação que envolvem múltiplos atores e interesses (Mongabay Brasil, 2025).
A trajetória da ararinha-azul constitui um exemplo emblemático de integração entre ciência, políticas públicas, cooperação internacional e participação comunitária, demonstrando que esforços coordenados podem reverter cenários críticos de extinção. Seu retorno aos céus do sertão nordestino simboliza não apenas a recuperação de uma espécie, mas também a reconexão do bioma Caatinga com um de seus ícones ecológicos mais representativos.
Autor: Maylon Maurílio - Diretor de Associação do GEAS Brasil
Revisão: Iago Junqueira - Parceiro do GEAS BRASIL pela The Wild Place
Painel Selvagem de Junho/2026
REFERÊNCIAS
BARROS, Y. M. et al. Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul (Cyanopsitta spixii). Brasília: ICMBio, 2012.
BIRDLIFE INTERNATIONAL. Cyanopsitta spixii (Spix’s Macaw). The IUCN Red List of Threatened Species 2019: e.T22685513A153628595. Disponível em: https://www.iucnredlist.org/species/22685513/153628595. Acesso em: 4 nov. 2025.
BRASIL. Criação do Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul e da Área de Proteção Ambiental da Ararinha-Azul, no Estado da Bahia. Decreto nº 9.346, de 19 de abril de 2018. Diário Oficial da União, Brasília, 20 abr. 2018.
ICMBIO – INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-Azul: 2012–2017. Brasília: ICMBio, 2012.
ICMBIO – INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. Segundo Ciclo do Plano de Ação Nacional (PAN) para a Ararinha-Azul: 2019–2024. Brasília: ICMBio, 2019.
ICMBIO – INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. Nota técnica sobre o surto de circovírus em ararinhas-azuis no Centro de Reprodução e Reintrodução de Curaçá (BA). Brasília: ICMBio, 2025.
LUGARINI, C. et al. Reintrodução da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii): avanços e desafios. Biodiversidade Brasileira, v. 11, n. 2, p. 64–79, 2021.
MONGABAY BRASIL. Surto de vírus entre ararinhas-azuis expõe desafios na reintrodução da espécie. São Paulo, 2025. Disponível em: https://brasil.mongabay.com. Acesso em: 4 nov. 2025.
PURCHASE, D. Captive breeding and genetic management of the Spix’s Macaw (Cyanopsitta spixii). International Zoo Yearbook, v. 53, p. 1–10, 2019.



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