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Saúde Única e fauna silvestre: o papel dos quatis (Nasua nasua) na circulação de zoonoses

O quati (Nasua nasua Linnaeus, 1766) é um mamífero da família Procyonidae, com ampla distribuição na América do Sul, ocorrendo em biomas como Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga (REIS et al., 2011; EMMONS; FEER, 1997). São animais de hábitos diurnos, onívoros e altamente adaptáveis, podendo viver tanto em zonas naturais quanto em áreas antropizadas (BEISIEGEL, 2001). Seu comportamento social, marcado por fêmeas e indivíduos jovens vivendo em bandos, associado à dieta generalista, favorece o contato frequente com resíduos humanos, animais domésticos e ambientes potencialmente contaminados (REIS et al., 2011). A fragmentação de habitats tem favorecido a exposição da espécie a diferentes agentes infecciosos, incluindo parasitos e microrganismos com elevado potencial zoonótico. Dessa forma, os quatis atuam como importantes reservatórios ou hospedeiros de manutenção de parasitos, desempenhando um papel relevante na dinâmica de zoonoses associadas à fauna silvestre, aos animais domésticos e aos seres humanos (HERRERA et al., 2007; ANDRÉ et al., 2019a).

Os patógenos transmitidos por vetores constituem algumas das principais ameaças zoonóticas circulantes em populações de quatis no Brasil, com elevada prevalência e ampla diversidade de agentes etiológicos (ANDRÉ et al., 2023). No Parque Nacional do Iguaçu, Mycoplasma sp. hemotrópico foi o patógeno mais frequente, infectando 85,7% (42/49) dos animais amostrados, seguido por Bartonella machadoae, detectada em 24,5% (12/49), ampliando o espectro de hospedeiros dessa bactéria além de roedores (ANDRÉ et al., 2023). Anaplasma sp., geneticamente próxima a “Candidatus Anaplasma brasiliensis”, foi detectada em 14,3% (7/49) dos quatis, enquanto Hepatozoon procyonis ocorreu em 6% (3/49) dos indivíduos avaliados (ANDRÉ et al., 2019). Coinfecções foram frequentes, com 18,3% dos animais infectados simultaneamente por Mycoplasma e Bartonella, 12,2% por Mycoplasma e Anaplasma, e 4% apresentando infecção tripla por bactérias transmitidas por vetores (ANDRÉ et al., 2023).

Os nematóides filariais apresentaram prevalências igualmente expressivas. No Parque Nacional do Iguaçu, o teste de Knott revelou infecção filarial em 81,6% dos quatis amostrados, com a identificação de sete morfotipos, incluindo Dirofilaria immitis, Dirofilaria repens, Acanthocheilonema reconditum, Brugia sp. e Mansonella sp., sendo D. immitis detectada em 1,33% dos animais (ANDRÉ et al., 2019). Em áreas urbanas da região Centro-Oeste, a infecção por Mansonella sp. foi ainda mais intensa, com microfilárias observadas em 30% dos esfregaços sanguíneos e em até 80% dos leucócitos analisados (DA SILVA et al., 2023).

Os estudos também destacam a importância dos quatis na manutenção de Trypanosoma cruzi, especialmente no Pantanal. Testes sorológicos e hemoculturas realizados entre os períodos de 2000–2001 e 2005–2007 indicaram alta prevalência e intensa transmissão do parasito (HERRERA et al., 2007; HERRERA et al., 2008). A recuperação de diferentes genótipos em um mesmo indivíduo ao longo de até oito meses sugere tanto reinfecções quanto a persistência simultânea de múltiplas linhagens, reforçando o papel epidemiológico dos quatis na circulação de cepas associadas à doença de Chagas humana (HERRERA et al., 2008). Além disso, a detecção de Trypanosoma evansi em quatis no Parque Municipal de Mangabeiras, área considerada não endêmica, indica possível introdução recente do parasito e posiciona a espécie como potencial reservatório ou sentinela epidemiológica (ROCHA et al., 2019).

Além dos protozoários e bactérias, também há registros da circulação de vírus e helmintos emergentes em populações de quatis. A variante Zeta (P.2) do SARS-CoV-2 foi detectada por RT-qPCR em 5% (2/40) dos animais capturados entre fevereiro e agosto de 2021, enquanto a sorologia indicou 50% de soropositividade, evidenciando ampla exposição ao vírus (ANDRÉ et al., 2022). O sequenciamento genético confirmou elevada similaridade com cepas humanas locais, sustentando a hipótese de transmissão humano–animal (ANDRÉ et al., 2022). Por fim, a descrição de Angiostrongylus minasensis n. sp. em quatis urbanos de Belo Horizonte, confirmada por análises morfológicas e filogenéticas do gene cox1, representa um achado relevante, considerando que espécies do gênero Angiostrongylus estão associadas a quadros de meningite eosinofílica e neuroangiostrongilíase em humanos (SIMÕES et al., 2020).

A elevada frequência de interação entre quatis, seres humanos e animais domésticos em áreas urbanizadas e turísticas aumenta o potencial para eventos de spillover e spillback. O spillover ocorre quando agentes infecciosos presentes na fauna silvestre são transmitidos para humanos ou animais domésticos, enquanto o spillback corresponde ao processo inverso, no qual patógenos introduzidos por humanos ou animais domésticos passam a circular em populações silvestres. No Parque Nacional do Iguaçu, onde os quatis frequentemente entram em contato com visitantes e resíduos alimentares de origem antrópica, esses processos tornam-se particularmente relevantes. A detecção de agentes com potencial zoonótico, como filarídeos, Trypanosoma cruzi e, mais recentemente, SARS-CoV-2, evidencia que a interface entre fauna silvestre, animais domésticos e seres humanos pode favorecer a circulação bidirecional de patógenos (ANDRÉ et al., 2019a; ANDRÉ et al., 2022; DESTOUMIEUX-GARZÓN et al., 2018). Embora o risco individual de infecção para visitantes seja considerado baixo quando não há contato direto com os animais, a aproximação frequente, a alimentação inadequada da fauna e o manejo incorreto de resíduos podem aumentar as oportunidades de exposição a agentes infecciosos e favorecer alterações comportamentais que aproximam ainda mais os quatis dos ambientes antrópicos.

Apesar da importância sanitária associada aos quatis, é fundamental ressaltar que a presença desses animais em áreas urbanas não deve ser interpretada como um problema isolado da fauna silvestre, mas como uma consequência direta das alterações ambientais provocadas pela ação humana (DESTOUMIEUX-GARZÓN et al., 2018). A abordagem sob a perspectiva da Saúde Única permite compreender que a conservação da espécie e a redução dos riscos zoonóticos são objetivos complementares e interdependentes (DESTOUMIEUX-GARZÓN et al., 2018).

Por fim, a preservação e a recuperação de fragmentos florestais, associadas à criação de corredores ecológicos e a programas de educação ambiental, constituem medidas fundamentais para a conservação dos quatis e para a redução dos riscos sanitários na interface humano-fauna. Em áreas turísticas, como o Parque Nacional do Iguaçu, recomenda-se que visitantes evitem alimentar ou manipular os animais, mantenham distância segura e realizem o descarte adequado de resíduos. Da mesma forma, proprietários de cães e gatos que residem em áreas com ocorrência de quatis devem manter vacinação, vermifugação e controle de ectoparasitas atualizados, além de restringir o acesso dos animais domésticos a áreas de mata e evitar interações diretas com a fauna silvestre. O monitoramento sanitário contínuo da fauna, aliado à integração entre órgãos ambientais, serviços de saúde pública e comunidade local, representa uma estratégia essencial para minimizar eventos de spillover e spillback e promover ações alinhadas aos princípios da Saúde Única (DESTOUMIEUX-GARZÓN et al., 2018).

Figura 1: Quatis em bando

Fonte: onçafari


Autora: Maria Eduarda Panisson Balzan – Representante Regional

Revisão: Iago Junqueira  - Parceiro do GEAS BRASIL pela The Wild Place

Painel Selvagem Julho/2026

Referências:

ANDRÉ, M. R.; PERLES, L.; BARRETO, W. T. G.; SANTOS, F. M.; DUARTE, L. L.; MACEDO, G. C.; BARROS-BATTESTI, D. M.; HERRERA, H. M.; MACHADO, R. Z. Molecular survey of hemotropic Mycoplasma spp., Bartonella spp. and Anaplasmataceae in free-ranging coatis (Nasua nasua) from Brazil. Pathogens, v. 12, n. 4, p. 538, 2023.

MORAES, M. F. D.; SILVA, M. X.; MAGALHÃES-MATOS, P. C.; ALBUQUERQUE, A. C. A.; TEBALDI, J. H.; MATHIAS, L. A.; HOPPE, E. G. L. Filarial nematodes with zoonotic potential in ring-tailed coatis (Nasua nasua) and domestic dogs from Brazil. Parasites & Vectors/Veterinary Parasitology: Regional Studies and Reports, 2019a.

EMMONS, L. H.; FEER, F. Neotropical rainforest mammals: a field guide. 2. ed. Chicago: University of Chicago Press, 1997.

REIS, N. R.; PERACCHI, A. L.; PEDRO, W. A.; LIMA, I. P. Mamíferos do Brasil. 2. ed. Londrina: Editora UEL, 2011.

BEISIEGEL, B. M. Notes on the diet and behavior of the coati (Nasua nasua). Revista Brasileira de Zoologia, v. 18, n. 1, p. 175–180, 2001.

ANDRÉ, M. R. et al. Hepatozoon procyonis infection in free-ranging coatis from Brazil. Ticks and Tick-borne Diseases, v. 10, n. 2, p. 341–346, 2019b.

DA SILVA, C. B. et al. High occurrence of Mansonella sp. microfilariae in coatis from urban areas of central Brazil. Veterinary Parasitology: Regional Studies and Reports, v. 31, 2023.

HERRERA, H. M. et al. Trypanosoma cruzi infection in wild mammals of the Pantanal: ecological and epidemiological aspects. Parasitology, v. 134, p. 393–404, 2007.

HERRERA, H. M. et al. Enzootiology of Trypanosoma cruzi in the Pantanal, Brazil. Veterinary Parasitology, v. 151, p. 130–136, 2008.

ROCHA, F. L. et al. Trypanosoma evansi in free-ranging coatis from a non-endemic area in Brazil. Journal of Wildlife Diseases, v. 55, n. 3, p. 676–680, 2019.

ANDRÉ, M. R. et al. Detection of SARS-CoV-2 variant P.2 (Zeta) in free-ranging coatis (Nasua nasua), Brazil. Emerging Infectious Diseases, v. 28, n. 10, p. 2062–2065, 2022.

SIMÕES, R. O. et al. Angiostrongylus minasensis n. sp. (Nematoda: Metastrongylidae) parasitizing urban coatis (Nasua nasua) in Brazil. Parasitology Research, v. 119, p. 1401–1412, 2020.

DESTOUMIEUX-GARZÓN, D. et al. The One Health concept: 10 years old and a long road ahead. Frontiers in Veterinary Science, v. 5, p. 14, 2018.

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Fauna silvestre e saúde pública. Brasília: MMA, 2020.

 
 
 

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