Barotrauma em quirópteros: mecanismos fisiopatológicos e implicações para a conservação
- GEAS Brasil
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A energia obtida por parques eólicos é globalmente vista como eminentemente vantajosa e classificada como uma fonte “limpa” e renovável, entretanto, a nível local, nem sempre é percebida como tal. Isto se deve à geração de consideráveis impactos negativos ao meio ambiente, que variam conforme as características do local de instalação dos Parques Eólicos. Esta crítica ganha força quando observamos os danos inerentes à biodiversidade, especialmente à fauna alada. Entre os principais danos ambientais citados, destacam-se desmatamento, erosão do solo, poluição sonora, interferência magnética e perda populacional desta fauna, caracterizada por insetos, aves e morcegos (Ferreira, 2019).
A atenção aos impactos causados às espécies de morcegos no Brasil se deu de forma recente, visto que os primeiros estudos que compõem o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) envolvendo os animais afetados em parques eólicos destacaram as aves e insetos voadores como os principais clados afetados. Em torno de duas décadas após, iniciaram-se estudos com as colisões de morcegos com os aerogeradores, sendo, atualmente considerados um dos mais relevantes impactos (Sovernigo, 2009).
Para a quiropterofauna, além da colisão (FIG 1), o risco se intensifica por outro tipo de fenômeno, o barotrauma. Os morcegos são particularmente vulneráveis a essa lesão tecidual, impacto que é causado por uma queda repentina da pressão atmosférica próxima às extremidades das lâminas da usina. Apesar de usarem a ecolocalização para detectar e evitar as pás da turbina, a exposição a essa despressurização do ar causa uma expansão súbita dos pulmões dos animais, podendo levar ao rompimento de vasos capilares e hemorragia interna (Barbosa Filho, 2013).
FIG 1: Imagem radiográfica de cadáver de morcego (Eumops sp.) coletado em usina eólica já em óbito. Evidencia-se fraturas completas de clavícula e região diafisária do úmero, além de multiplos focos de fraturas na pelve (setas).
Fonte: arquivo pessoal
Nesse sentido, por meio da análise patológica de morcegos encontrados mortos próximos a parques de energia eólica, o barotrauma se evidencia como uma importante causa de óbito desses animais. Os exames microscópicos dos pulmões revelam como principais achados: hemorragia, edema, congestão e êmbolo (FIG 2). Tais achados são resultantes da expansão súbita e violenta dos morcegos em resposta à diferença de pressão do ar, levando a um rompimento de paredes alveolares e vasos capilares. A maior vulnerabilidade da espécie é devido a alta complacência e expansibilidade dos pulmões, uma característica fisiológica e anatômica dos mamíferos determinada pela estrutura alveolar. No entanto, essa complacência também torna os pulmões suscetíveis à sobredistensão e ruptura alveolar quando expostos a variações bruscas de pressão. Essa característica contrasta com a anatomia das aves, que possuem pulmões mais rígidos e robustos, dificultando a expansão traumática e tornando-as significativamente menos suscetíveis ao barotrauma (Rollins et al.).

FIG 2: Achado microscópico de êmbolo (setas) em artéria do pulmão de um morcego-prateado (Lasionycteris noctivagans). Coloração HE (Hematoxilina e Eosina). Fonte: Rollins, et al. (2012).
As descobertas sobre o barotrauma nestes animais próximos a usinas eólicas são preocupantes para a conservação populacional dos morcegos regionalmente. Diferente das colisões visíveis, o barotrauma representa uma ameaça silenciosa, mas massiva, que tem consequência direta e severa para a saúde dos ecossistemas, uma vez que os quirópteros desempenham um papel ecológico essencial para a biodiversidade em diferentes níveis da cadeia alimentar atuando como polinizadores de diversas espécies de plantas, dispersores de sementes e controladores populacionais de insetos (Staut, 2011).
Para mitigar a mortalidade por barotrauma e colisão, as intervenções devem focar em ajustes operacionais e tecnologias de dissuasão. A medida mais eficaz é o aumento da velocidade de partida (cut-in speed) dos aerogeradores, programando-os para operar apenas em ventos mais fortes, quando a atividade dos morcegos é reduzida. Adicionalmente, a instalação de emissores de ultrassom nas pás atua como um repelente acústico, afastando os animais das zonas de perigo (Arnett et al., 2011). No Brasil, o IBAMA e órgãos estaduais regulam essas atividades através do licenciamento ambiental e exigência de monitoramento constante da fauna. Instituições de pesquisa complementam essas ações com análises patológicas que fundamentam novas diretrizes de conservação. A ajuda da sociedade ocorre por meio do apoio a políticas de energia sustentável que priorizem tecnologias mitigadoras, preservando os serviços ecossistêmicos essenciais dos quirópteros, como a polinização e o controle de pragas.
Author: Luana Wnuck - Vice-Diretora de Secretaria do GEAS Brasil
Revision: Iago Junqueira - Partner of GEAS BRASIL for The Wild Place
Wild Panel - June/2026
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARNETT, E. B. et al. Altering turbine speed reduces bat mortality at wind-energy facilities. Frontiers in Ecology and the Environment, v. 9, n. 4, p. 209-214, 2011.
BARBOSA FILHO, W. P. Impactos Ambientais em Usinas Eólicas. AGRENER, GD. Itajubá –MG, 2013.
FERREIRA, J. M. Potenciais impactos ambientais de parques eólicos sobre morcegos no litoral sul do Rio Grande do Sul. In: CONGRESSO IBEAS, 2019.
SOVERNIGO, M. H. Impacto dos aerogeradores sobre a avifauna e quiropterofauna no Brasil. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2009.
STAUT, F. O processo de implantação de parques eólicos no Nordeste brasileiro: aspectos ambientais e jurídicos. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2011.
Rollins, K. E., D K Meyerholz, G D Johnson, A P Capparella, S S Loew “A Forensic Investigation into the Etiology of Bat Mortality at a Wind Farm: Barotrauma or Traumatic Injury?” Veterinary Pathology, 49:2, 2012, 362–371p







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