Efeito anti-tumoral de enzimas isoladas da peçonha de jararacas (Bothrops spp.)
- GEAS Brasil
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O câncer é uma das principais causas de morte em todo o mundo e, apesar dos avanços na medicina, os tratamentos disponíveis ainda apresentam alto custo e eficácia limitada. As terapias convencionais, como a quimioterapia, muitas vezes não conseguem eliminar completamente as células tumorais e causam sérios efeitos colaterais nos tecidos saudáveis (Bonassa & Santana, 2005). Por isso, cresce o interesse por alternativas inovadoras que possam ser mais eficazes e menos agressivas ao organismo.
Entre essas novas possibilidades, destacam-se os estudos com peçonhas de serpentes, que têm se mostrado uma fonte promissora de moléculas bioativas, interagindo diretamente com estruturas biológicas do organismo. A análise proteômica desses compostos revelou a presença de enzimas, como as fosfolipases A₂ (PLA₂s) e as metaloproteases, capazes de desempenhar diversas funções biológicas, algumas com potencial para o combate ao câncer e outras doenças (Furtado et al., 2012; Teixeira, 2009). As PLA₂s representam uma parte significativa das proteínas presentes nas peçonhas e vêm chamando atenção por seu potencial terapêutico. A enzima Bpir-I, isolada do veneno da Bothrops pirajai, por exemplo, apresenta atividades enzimáticas, citotóxicas, antitrombóticas e anti-tumorais, mas com baixa toxicidade, o que a torna uma opção interessante para o desenvolvimento de novos medicamentos. Os estudos foram conduzidos principalmente em laboratórios de genética, toxicologia e bioquímica vinculados à Universidade Federal de Uberlândia e à Universidade de São Paulo, utilizando linhagens de Drosophila fornecidas pelo Bloomington Drosophila Stock Center e pela ETH Zurich. Os experimentos envolveram análises em microscopia estereoscópica, ensaios toxicológicos, bioquímicos, citotóxicos e farmacológicos, contando também com colaborações da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Estadual Paulista.
Outro exemplo importante é a BnSP-6, proveniente da Bothrops pauloensis, demonstrou capacidade de induzir morte celular por apoptose e autofagia em células de câncer de mama, além de inibir processos de angiogênese e metástase, fatores importantes para a disseminação da neoplasia. De forma semelhante, estudos recentes com a enzima BnSP-7, também isolada da mesma espécie, revelaram um efeito antiangiogênico significativo. Essa enzima foi capaz de reduzir a proliferação e a migração de células endoteliais humanas (HUVECs) sem apresentar toxicidade, o que indica uma ação seletiva sobre as células relacionadas à formação de novos vasos sanguíneos. Ao impedir esse processo, a BnSP-7 dificulta o crescimento do tumor e reduz as chances de metástase (Rodrigues et al., 1998).

Figura 1. Ensaio de inibição da angiogênese in vitro com matrigel. A: Controle positivo, células não tratadas. B: Células tratadas com BnSP-7 10µg/mL. C: Células tratadas com BnSP-7 40µg/mL. As células foram fotografadas após 18h de tratamento na objetiva de 20x. Fonte: Moura, 2016.
Além disso, a PLA₂ MjTXII, obtida do veneno da Bothrops moojeni, também demonstrou efeitos anti-metastáticos e anti-angiogênicos em células de câncer de pulmão. Essa enzima atua sobre mecanismos essenciais para o crescimento e a disseminação tumoral, sem causar danos significativos às células normais (Azevedo, 2015; Santos, 2021; Teixeira, 2009). Enquanto isso, as metaloproteases (MPVs) também têm sido amplamente estudadas. Elas podem interferir em processos de adesão e invasão celular, fundamentais para a formação e progressão dos tumores. Um estudo com a metaloprotease isolada de Bothrops pauloensis mostrou que a enzima foi capaz de reduzir a formação de tumores epiteliais em mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster), modelo amplamente utilizado na pesquisa sobre carcinogênese (Furtado et al., 2012).
Esses resultados reforçam o potencial das enzimas de peçonhas como ferramentas para o desenvolvimento de fármacos inovadores. Os experimentos realizados em laboratório demonstram que as toxinas presentes nas peçonhas do gênero Bothrops podem agir de forma seletiva, inibindo a proliferação e a angiogênese de células tumorais, sem comprometer a viabilidade das células saudáveis, sendo uma característica essencial para um tratamento eficaz e seguro. Por conta disso, a continuidade dessas pesquisas pode abrir caminho para o desenvolvimento de medicamentos mais eficientes, com menor toxicidade e maior potencial de sucesso no tratamento de diferentes tipos de câncer.
Autora: Mariana Rezende Cardoso - Diretora de Secretaria do GEAS Brasil
Revisão: Iago Junqueira - Parceiro do GEAS BRASIL pela The Wild Place
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AZEVEDO, F. V. P. de V. Morte de células de adenocarcinoma de mama humano por BnSP-6, uma fosfolipase A2 Lys-49 homóloga da peçonha de Bothrops pauloensis. Tese de mestrado. Universidade Federal de Uberlândia, Programa de Pós-graduação em Genética e Bioquímica, Ciências Biológicas, 2015.
BONASSA, E. M. A.; SANTANA, T. R. Enfermagem em terapêutica oncológica. São Paulo: Atheneu, 2005.
FURTADO, S. G.; NEPOMUCENO, J. C. Redução de tumor epitelial em Drosophila melanogaster, pela enzima metaloprotease isolada da peçonha da serpente Bothrops pauloensis, por meio de teste wts (warts). Revista Perquirere. Centro Universitário de Patos de Minas (UNIPAM), 2012.
MOURA, E. C. Atividade anti-angiogênica da fosfolipase A₂ (PLA₂ Lys-49) BnSP-7 isolada da peçonha de Bothrops pauloensis. 2016. Monografia (Bacharelado em Ciências Biológicas) – Instituto de Biologia, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2016.
SANTOS, L. C. Efeito antimetastático em células de câncer de pulmão e antiangiogênicoda PLA2 Lys49 MjTX-II, isolada da peçonha de Bothrops moojeni. Dissertação de mestrado. Universidade Federal da Bahia – Vitória da Conquista, 2021.
TEIXEIRA, S.S. Caracterização funcional e estrutural de uma fosfolipase A2 ácida isolada do veneno de Bothrops pirajai. 2009. 96fl. Dissertação de mestrado. Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2009.





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