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Detecção de Bartonella spp. em aves marinhas: uma questão de saúde pública

A emergência e reemergência de doenças zoonóticas estão intimamente relacionadas a fatores antropogênicos que alteram a dinâmica ecológica existente e, consequentemente, as relações patógeno-hospedeiro já conhecidas. A crescente proximidade entre espécies silvestres, animais domésticos e seres humanos favorece diferentes vias de circulação de agentes patogênicos, resultando na exposição de novos hospedeiros suscetíveis e de potenciais reservatórios para doenças (Souza, 2021).

Nas últimas décadas, a incidência de enfermidades bacterianas zoonóticas em seres-humanos tem aumentado (Bernal et al., 2023), incluindo a incidência da bartonelose, uma infecção causada pelo bacilo gram-negativo Bartonella spp. Dentre as 45 espécies de Bartonella descritas, 13 são potencialmente zoonóticas (Bernal et al., 2022) e têm sido detectadas em mamíferos silvestres, seus principais reservatórios (Souza, 2021).

Recentemente, diversas espécies de aves também têm sido identificadas como hospedeiras de bactérias do gênero Bartonella. Essa bactéria foi detectada em aves marinhas do litoral brasileiro, especificamente nas espécies albatroz-de-sobrancelha-negra (Thalassarche melanophris), albatroz-de-nariz-amarelo-do-atlântico (Thalassarche chlororhynchos) e pinguim-de-magalhães (Spheniscus magellanicus). A caracterização molecular das amostras coletadas revelou alta correspondência entre as regiões gênicas identificadas nas amostras dos pinguins e as sequências previamente descritas de Bartonella henselae (Lee et al., 2025). 

A infecção por Bartonella henselae é muito comum em gatos domésticos e em seres-humanos, sendo responsável pela “doença da arranhadura do gato”, caracterizada por uma linfadenopatia local autolimitante. A pulga Ctenocephalides felis felis é essencial na transmissão do agente infeccioso entre os felinos (Pennisi et al., 2025), uma vez que a bactéria apresenta tropismo por eritrócitos e células endoteliais (Bernal et al., 2022), que são ingeridos pela pulga durante o repasto sanguíneo, permitindo a multiplicação bacteriana no intestino do vetor e sua excreção pelas fezes (Pennisi et al., 2025).

Figura 1. Identificação imunohistoquímica da Bartonella henselae em um caso de doença da arranhadura do gato. Fonte: Pennisi et al. 2013.

Os vetores envolvidos na transmissão de Bartonella spp. em aves ainda são desconhecidos, mas acredita-se que essa transmissão esteja relacionada a um ectoparasito hematófago (Lee et al., 2025). Os artrópodes vetores da bartonelose incluem, principalmente, mosquitos, pulgas e carrapatos, que, ao serem carreados por aves silvestres, podem ser amplamente disseminados (Sacchi, 2015), havendo, inclusive, a possibilidade de transmissão cruzada entre mamíferos e aves (Lee et al., 2025), o que representa um importante desafio para a saúde pública.

As aves migratórias desempenham um papel fundamental na manutenção e disseminação de patógenos em escala global. A travessia de fronteiras nacionais e internacionais permite que esses animais atuem como vetores de longa distância para diversos microrganismos, criando novos focos endêmicos para diversas doenças (Reed et al., 2003). 

Além disso, a maior ocupação humana do litoral e a aproximação de animais domésticos e selvagens, como pelo abandono e pelo livre acesso de gatos a ambientes naturais, permite o maior contato dos animais com urina e fezes de outras espécies e o aumento da predação de animais silvestres, principalmente, de aves marinhas no período de nidificação (Ferreira et al., 2012). A melhor investigação das interações entre as aves, os mamíferos reservatórios e os artrópodes hematófagos durante os períodos migratórios é muito importante para compreender o ciclo epidemiológico da bartonelose (Lee et al., 2025).

Conclui-se, portanto, que as aves marinhas podem atuar como potenciais reservatórios na transmissão de doenças zoonóticas emergentes, demonstrando a importância de mais estudos sobre a sua participação no ciclo epidemiológico dessas enfermidades, a fim de orientar a elaboração de estratégias eficazes de vigilância e controle de zoonoses.

Autora: Laís Gabriele Starke - Vice-Diretora de Secretaria do GEAS Brasil

Revisão: Iago Junqueira - Parceiro do GEAS BRASIL pela The Wild Place


Painel Selvagem de Maio/2026


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


BERNAL, M. K. M.; PEREIRA, W. L. A.; RIBEIRO, B. C.; SARMENTO, V. P.; NUNES, H. M. Bartonelose: doença de importância para a saúde pública envolvendo a tríade homem-ambiente-animal. Arquivos de Ciências Veterinárias e Zoologia da UNIPAR, v. 26, n. 1, cont., p. 1–24, 2023. DOI: 10.25110/arqvet.v26i1cont-001.


BERNAL, M. K. M. et al. Molecular analysis of Bartonella spp. in liver tissue of bats from the Atlantic Forest biome, Brazil. Semina: Ciências Agrárias, v. 43, n. 6, p. 2471-2482, 2022. DOI: 10.5433/1679-0359.2022v43n6p2471.


FERREIRA, G.A; OLIVEIRA, E. N.; GENARO G. Gatos: vilões ou vítimas? Revista Expedição de Campo, vol. 3, p. 22-26, 2012.


LEE, D. A. B. et al. First molecular detection of Bartonella spp. in seabirds (Procellariiformes and Sphenisciformes) rescued on the Brazilian coast. Acta Tropica, v. 271, p. 107854, 2025. DOI: 10.1016/j.actatropica.2025.107854.


PENNISI, M.G.; MARSILIO, F.; HARTMANN, K. et al. Bartonella species infection in cats: ABCD guidelines on prevention and management. J Feline Med Surg, v. 15, p. 563-569, 2013. DOI:10.1177/1098612X13489214.


SACCHI, Ana Beatriz Vieira. Diagnóstico sorológico e molecular de agentes transmitidos por artrópodes em aves carnívoras. 2015. 75 f. Tese (Doutorado em Medicina Veterinária) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, 2015.


SOUZA, U. A. Ectoparasitos e patógenos vetoriais emergentes (Bartonella spp., Rickettsia spp. e Mycoplasma spp.) em felídeos neotropicais. 2021. Tese (Doutorado em Ciências Veterinárias) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2021.


REED, K. D.; MEECE, J. K.; HENKEL, J. S.; SHUKLA, S. K. Birds, migration and emerging zoonoses: West Nile virus, Lyme disease, influenza A and enteropathogens. Clinical Medicine & Research, v. 1, n. 1, p. 5–12, 2003. DOI: https://doi.org/10.3121/cmr.1.1.5.


 
 
 

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