
Mico-leão-da-cara-dourada: Uma joia da cabruca sul-baiana
- GEAS Brasil
- há 5 horas
- 4 min de leitura
De pelagem predominante preta e uma juba dourada que lhe emoldura o rosto, o mico-leão-de-cara-dourada, Leontopithecus chrysomelas (Kuhl, 1820), é um pequeno primata calitriquídeo, endêmico da Mata Atlântica, cuja distribuição foi reduzida ao sul da Bahia (TEIXEIRA et al., 2023). São animais sociais que vivem em grupos familiares que praticam uma criação de filhotes cooperativa, em que todos os membros cuidam dos filhotes (ELSACKER et al., 1992). De dieta onívora, esses animais se alimentam de frutos, flores, néctar e pequenos animais (RABOY; DIETZ, 2024). Ao forragear, atuam como importantes dispersores de sementes e polinizadores, contribuindo ativamente para a dinâmica e regeneração florestal (RYLANDS et al., 2008).
A espécie tem como principal ameaça a perda e fragmentação de habitat, já que a Mata Atlântica da região foi reduzida a um conjunto de fragmentos florestais isolados em meio a áreas abertas e modificadas pela atividade antrópica. (PIOVESAN; KIERULFF, 2015). Além disso, surtos de doenças, como a febre amarela, representam uma ameaça crescente e de alto impacto para as populações já vulneráveis (DIETZ et al., 2019). Nessa cena de intensa pressão sobre a espécie, já considerada pela IUCN como ameaçada de extinção, as cabrucas desenvolvem um importante papel para a conservação desses calitriquídeos (CASSANO et al., 2014).
As cabrucas são um sistema agroflorestal onde cacaueiros são plantados sob a sombra de árvores nativas, criando um ambiente onde há um dossel florestal contínuo, abundância de cipós e manutenção de árvores de grande porte abundantes em bromélias e ocos para refúgio e alimentação (PINTO; TAVARES, 2007). Tais fatores constituem elementos estruturais importantes para sustentar certa densidade populacional de micos-leões, com desempenho semelhante ao de fragmentos de floresta nativa, servindo assim como um habitat primário, não corredores ecológicos (LLEWELLYN, 2011; Flesher, 2015). Entretanto, a crise econômica do cacau, que começou na década de 1990 devido ao fungo da vassoura de bruxa (Moniliophthora perniciosa), representa uma ameaça indireta ao mico, ao motivar a substituição das cabrucas por pastagens ou culturas a pleno sol, o que intensifica o desmatamento (ALMEIDA; LIMA, 2018).
A conservação do mico-leão-da-cara-dourada exige uma abordagem transdisciplinar e integrada para que haja esforços educacionais, a fim de promover práticas agrícolas condizentes com a conservação da biodiversidade e que esforços in-situ e ex-situ possam unir forças nessa causa. Existem, atualmente, projetos empenhados neste objetivo como o Projeto BioBrasil e o Almada Mata Atlântica Project (AMAP) que podem ser contactados e ajudados por meio de suas redes sociais. Além disso, é possível citar a iniciativa da cooperativa Indicação Geográfica Cacau Sul da Bahia que destina 3% de seu lucro à iniciativas de conservação do mico-leão-baiano. Existem ainda reservas biológicas de extrema importância para a manutenção da espécie, como é o caso da ReBio de Una, monitorada e administrada pelo Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio). Todos esses esforços juntos trazem uma ponta de esperança no que se refere à conservação desses pequenos primatas.
Autor: Pedro Vinícius Japiassu de Almeida Nunes
Representante Regional do GEAS Brasil
Revisão: Iago Junqueira- Parceiro do GEAS Brasil pela The Wild Place
Painel Selvagem de Maio/2026
Referências
ALMEIDA, A. de S.; LIMA, L. G. de. A crise da lavoura cacaueira e suas consequências socioambientais no sul da Bahia. Revista Meio Ambiente e Sustentabilidade, Curitiba, v. 14, n. 7, p. 110-129, 2018.
CATENACCI, L.S., DE VLEESCHOUWER, K.M. and NOGUEIRA-FILHO, S.L.G., Seed Dispersal by Golden-headed Lion Tamarins Leontopithecus chrysomelas in Southern Bahian Atlantic Forest, Brazil. Biotropica, v. 41, pp. 744-750, 2009.
DIETZ, J. M.; BAKER, A. J. Polygyny and female reproductive success in golden lion tamarins, Leontopithecus rosalia. Animal Behaviour, London, v. 46, n. 6, p. 1067-1078, 1993.
ELSACKER, L. V.; MEURICHY, W.; WALRAVEN, V. Maternal Differences in Infant Carriage in Golden-Headed Lion Tamarins (Leontopithecus chrysomelas). Folia Primatologica, v. 59, n. 4, pp. 121–126, 1992.
FLESHER, K. M. Ranging behavior of the golden-headed lion tamarin, Leontopithecus chrysomelas, in a matrix of cabruca and forest. American Journal of Primatology, New York, v. 77, n. 11, p. 1186-1196, 2015.
LLEWELLYN, M. S. The effects of habitat quality and fragmentation on the abundance of the golden-headed lion tamarin (Leontopithecus chrysomelas). 2011. Tese (Doutorado) – Durrell Institute of Conservation and Ecology, University of Kent, Canterbury, 2011.
DIETZ, J.M., HANKERSON, S.J., ALEXANDRE, B.R. et al. Yellow fever in Brazil threatens successful recovery of endangered golden lion tamarins. Scientific reports, v. 9, n. 12926, 2019.
PINTO, L. P. de S.; TAVARES, L. I. Conservação do mico-leão-da-cara-dourada: o papel das paisagens agroflorestais. In: CULLEN JR., L.; RUDRAN, R.; VALLADARES-PADUA, C. (org.). Métodos de estudos em biologia da conservação e manejo da vida silvestre. 2. ed. Curitiba: Editora UFPR, 2007. p. 611-630.
PIOVESAN, J. C.; KIERULFF, M. C. M. Ameaças e estado de conservação do mico-leão-da-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas). In: BICCA-MARQUES, J. C. (org.). Ecologia e comportamento de primatas brasileiros. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2015. p. 257-274.
RABOY, B. E.; DIETZ, J. M., Diet, foraging, and use of space in wild golden-headed lion tamarins. American Journal of Primatolology, v. 63, pp. 1-15, 2024.
RYLANDS, A. B. et al. The diversity of the lion tamarins, Leontopithecus: a case for the four species. Bioikos, Campinas, v. 22, n. 1, p. 7-52, 2008.
TEIXEIRA, J. V. d. S.; BONFIM, F. C. G.; VANCINE, M. H; RIBEIRO, M. C.; OLIVEIRA, L. C. Effect of landscape attributes on the occurrence of the endangered golden-headed lion tamarin in southern Bahia, Brazil. American Journal of Primatology, v. 86, e23588, 2024.


Comentários