Você conhece a raposinha-do-campo (Lycalopex vetulus)
- GEAS Brasil
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Juntamente com outras espécies dos gêneros Lycalopex, Cerdocyon e Atelocynus, a raposinha-do-campo faz parte de um grupo específico conhecido como “raposas sul-americanas” (SOUZA, 2018). O ancestral destas espécies teria deixado a América do Norte juntamente com uma segunda linhagem (representada por um possível ancestral dos gêneros Chrysocyon e Speothos) e chegado à América do Sul há aproximadamente 3.4 milhões de anos. Uma vez estabelecidas, ambas as linhagens teriam se dispersado por todo o continente e ocupado nichos até então disponíveis, diferenciando-se então nos gêneros conhecidos atualmente. Análises genéticas recentes não só têm corroborado a hipótese de que o gênero Lycalopex de fato constitui um grupo originalmente sul-americano, mas também sugerem que Lycalopex vetulus seja a espécie que retém características mais próximas ao ancestral comum do gênero (SOUZA, 2018).
A raposinha-do-campo é o menor canídeo brasileiro e apresenta dimorfismo sexual, com machos maiores do que fêmeas. Caracterizam-se por um focinho relativamente curto, cauda longa e peluda, orelhas triangulares, largas e proporcionalmente grandes, com peso que varia entre 2,5 a 4 kg em machos e de 3 a 3,6 kg em fêmeas. A pelagem dorsal e da parte superior da cabeça é acinzentada e a pelagem ventral é amarelada, com a região mandibular e a ponta da cauda pretas, e orelhas e patas com tonalidade avermelhadas (Figura 1). Os machos podem apresentar uma faixa mais escura na parte central do dorso até a ponta da cauda. Por conta da aparência similar, muitas vezes são confundidas com o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), espécie que possui distribuição sobreposta à da raposinha-do-campo.

Figura 1. Indivíduo adulto de raposinha-do-campo (L. vetulus) em vida livre. Fotografia: Pró-Carnívoros.Fonte: Pró-Carnívoros
Esta espécie é encontrada na região central do país, sendo associada ao bioma Cerrado e a ambientes mais secos do Pantanal e regiões xéricas do Nordeste Brasileiro, estende-se desde a região oeste do Estado de São Paulo até o Estado do Piauí, passando pelos Estados de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Tocantins (Figura 2).

Figura 2. Área de distribuição da raposinha-do-campo (Lycalopex vetulus). Fonte: União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), 2020.
Com relação ao comportamento, as raposas preferem habitats abertos e parecem se adaptar bem a pastos ricos em insetos e plantações de soja, arroz, milho e eucalipto, e raramente são vistas em ambientes florestais (cerradão e matas de galeria) e em ambientes inundáveis. As raposas-do-campo apresentam atividade crepuscular ou noturna e são consideradas de hábitos solitários e monogâmicos, formando pares reprodutivos durante a estação de acasalamento, em meados de Abril. O casal permanece junto durante a criação dos filhotes, sendo o contato entre a fêmea e o macho mais intenso nos quatro primeiros meses de vida da prole. A gestação dura cerca de 60 dias e geram ninhadas de 2 a 4 filhotes, os mesmos costumam nascer em tocas abandonadas de tatus ou em vegetação densa (Figura 3). A dieta inclui principalmente insetos (cupins, formigas e besouros rola-bosta), e também pode ser composta de pequenos roedores, aves e frutos. Durante as épocas de maior disponibilidade de alimento, podem ser vistas em grupos de 3-5 indivíduos.

Figura 3. Indivíduos filhotes de raposinha-do-campo (L. vetulus) em vida livre. Fonte: Conexão Planeta.
As maiores ameaças à conservação da raposa-do-campo parecem ser a destruição de seu hábitat e outros efeitos negativos diretos e indiretos causados pelo homem. Uma vez que a espécie ocorre principalmente nos domínios do Cerrado, e este se encontra entre os 25 ecossistemas mais ameaçados do planeta, as ações antrópicas representam a maior fonte de mortalidade da espécie. Além disso, perdas importantes não quantificadas decorrem de atropelamentos, predação por cães domésticos, doenças, retaliação à suposta predação de animais domésticos, e alta mortalidade de filhotes/juvenis, resultando em um declínio populacional de pelo menos 30% nos últimos 15 anos, e que deve atingir o limite de 30% nos próximos 15 anos. Assim, foi categorizada como Quase Ameaçada (NT) (IUCN, 2020).
Medidas que visam a proteção dessa espécie são extremamente importantes e necessárias, devido às diversas ameaças que a raposinha-do-campo enfrenta e sua importância ecológica. Nesse viés, projetos de conservação, como o Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado (PCMC), por meio do Projeto “Raposinha do Pontal”, atuam para levantar informações sobre a ecologia, comportamento, saúde e genética desta espécie, assim como suas interações com outros carnívoros silvestres e os efeitos das modificações impostas a ela pela ação humana em agroecossistemas (PROGRAMA DE CONSERVAÇÃO MAMÍFEROS DO CERRADO, 2025). Assim, o monitoramento de indivíduos é realizado através de, por exemplo, campanhas de captura, as quais objetivam a coleta de amostras da espécie para posterior análise, medida essencial para aprender mais sobre esses animais e, consequentemente, conseguir protegê-los da melhor forma possível. Portanto, além de medidas para a proteção desses indivíduos, projetos que buscam pesquisar mais sobre esta espécie e fatores que a influenciam são essenciais para a conservação da raposinha-do-campo.
Autora: Ana Júlia Duarte
Referências
TARDIN, R. H.; RODRIGUES, F. H. G.; PAULA, R. C. de. Carnivora – Canidae (Cachorro-do-mato, Cachorro-vinagre, Lobo-guará e Raposa-do-campo). In: CUBAS, Z. S.; SILVA, J. C. R.; CATÃO-DIAS, J. L. (org.). Tratado de Animais Selvagens. 2. ed. São Paulo: Editora Roca LTDA., 2014. p. 681-706.
INSTITUTO PRÓ-CARNÍVOROS. Raposinha-do-campo. Disponível em: https://procarnivoros.org.br/animais/raposinha-do-campo/. Acesso em: 3 out. 2025.
SOUZA, F. L. de. Ecologia e conservação da raposa-do-campo (Lycalopex vetulus). 2018. Dissertação (Mestrado em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais) – Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia. Disponível em: https://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/24303/1/EcologiaConservacaoRaposa.pdf. Acesso em: 3 out. 2025.
IUCN. The IUCN Red List of Threatened Species. Species ID 87695615. Disponível em: https://www.iucnredlist.org/species/pdf/87695615. Acesso em: 22 out. 2025.
PROGRAMA DE CONSERVAÇÃO MAMÍFEROS DO CERRADO. Projeto Raposinha do Pontal. Disponível em: https://www.pcmcbrasil.com/projeto-raposinha-do-pontal-1. Acesso em: 04 nov. 2025.



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